Maria Alice embarca na nave musical de Geraldo Espíndola
- 15 de jan.
- 3 min de leitura

por Rodrigo Teixeira
MATULA CULTURAL
Maria Alice traduz Geraldo Espíndola em seu novo álbum. A qualidade maior do mais novo rebento da cantora, quarto da carreira, é não embarcar na ideia de recriar a obra musical do compositor sul-mato-grossense e sim elaborar uma perfeita tradução das canções de Geraldo, artista símbolo centro-oestino do Brasil dentro. Entre as 14 faixas do repertório, apenas uma delas surpreende diante da versão original: “Vida Cigana”. O maior sucesso do compositor ganhou um arranjo em Bossa Nova, diferenciando a versão de Maria Alice de todas as outras gravadas até agora. As demais faixas, no entanto, seguem o rastro das opções estéticas do próprio compositor para mais atualizar a vestimenta da música do que incorporar novos elementos. O resultado é uma viagem conduzida por Maria Alice ao jeito Geraldo Espíndola de fazer música.
A cantora se adapta muito bem diante da obra diversificada de Geraldo. As composições do artista não seguem uma linha apenas, pelo contrário, ele usa e abusa de gêneros variados, como rock, blues, reggae, polca-rock e balada, e Maria Alice corresponde à altura, utilizando de sua experiência em ter cantado vários anos na noite e encarado os mais diferentes repertórios. É também evidente que Maria Alice carrega em suas interpretações a conexão necessária com os signos, cenários, paisagens e realidades evidenciadas nas letras do compositor poeta. Ela sabe do que Geraldo está falando e sua segura desenvoltura vocal está espalhada por todo o disco.
Esta segurança é fruto também de Maria Alice ter o auxílio de duas peças chaves para a concepção do disco: Pedro Ortale (direção musical) e Jerry Espíndola. Os dois já acompanham e participam da obra de Geraldo desde os anos 1980. Pedro Ortale, por exemplo, gravou como baixista da banda de Geraldo a música “Fala Bonito”, que está no primeiro CD do compositor lançado em 1998. Jerry Espíndola gravou com Geraldo a primeira versão de “Qhyqhyho” no LP ao vivo “Prata da Casa”, de 1982, e é o convidado de Geraldo para cantar “Forasteiro” em seu disco de 1991. Esta base segura de apoio fez com que Maria Alice alcance uma interpretação na medida, sem excessos, mas sensível.
O entrosamento da banda é evidente. A execução das músicas mais parecem um concerto ao vivo do que gravado separadamente no estúdio. Um acerto também alternar os solos entre acordeon, violão, guitarra, clarinete e teclado, adicionando assim diferentes coloridos e texturas sonoras as composições. É interessante a presença dos rifes originais das músicas de Geraldo incorporados aos novos arranjos de “Qhyqhyho”, “Fala Bonito” e “Cunhataiporã”, por exemplo. O apoio dos vocais do trio feminino também ajudaram a oxigenar e colorir a condução sem arestas da voz de Maria Alice. O recorte em priorizar as canções mais conhecidas de Geraldo no repertório, ao contrário do que fez no disco anterior dedicado a Paulo Simões, também é uma aposta da cantora para alcançar o público que já conhece o compositor ou mesmo o que irá ter contato com a obra de Geraldo pela primeira vez.
“Maria Alice canta Geraldo Espíndola” chama atenção para a obra de um dos compositores mais representativos da música brasileira da atualidade. Uma justa homenagem a um artista que, aos 72 anos, construiu um universo musical própria que insere a identidade sul-mato-grossense no legado artístico do país. Maria Alice tem o mérito de reconhecer esta pedra bruta de puro talento chamada Geraldo Espíndola e registrá-la para a posteridade.
Leia entrevista com Maria Alice: https://www.matulacultural.com/post/senti-necessidade-de-ser-mais-uma-voz-levantando-o-nome-dos-nossos-compositores
Escute o álbum "Maria Alice Canta Geraldo Espíndola" no Youtube: https://youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_lX0JFC3J0huU1ox-cYEUZIjxBQ4HSa_vU&si=0pZKRwc9NBRN23VO



