“Senti necessidade de ser mais uma voz levantando o nome dos nossos compositores”
- 14 de jan.
- 7 min de leitura

por Rodrigo Teixeira
MATULA CULTURAL
Dona de um jeito direto e sincero, Maria Alice chega ao quarto disco com uma produção musical solo contundente. Nos dois últimos álbuns ela surpreendeu ao lançar e dar continuidade a um projeto inédito na música de Mato Grosso do Sul: produzir discos para homenagear compositores sul-mato-grossenses. A raridade da ação da cantora envolve desde realizar a ação de forma independente, até realizar o tributo com os artistas vivos e na ativa, no caso, Paulo Simões e Geraldo Espíndola. Nesta entrevista, a artista comenta sobre a experiência em produzir os álbuns e como foi o processo para chegar a seu mais novo rebento, o disco “Maria Alice canta Geraldo Espíndola”.
Você presenciou, na década de 1980, a popularidade em alta da segunda geração de autores de Mato Grosso do Sul, com shows lotados e um repertório aclamado. Fazer os álbuns em homenagem a compositores desta geração que Paulo Simões e Geraldo Espíndola é fruto desta vivência?
MARIA ALICE – Acredito que sim porque quando mudei para o Estado em 1980, me lembro de assistir grandes shows com os artistas sul-mato-grossenses. Ainda tive aula de violão com o Carlos Colman, que é uma grande escola da nossa música também porque o Carlinhos ensinava as músicas dos autores do próprio Estado. Então homenagear artistas como o Geraldo e o Paulo é uma consequência também desta vivência que eu tive frequentando os shows e tendo contato com a obra desta geração. Outra questão que me moveu foi a percepção que fui tendo de como estes nossos compositores estavam ficando esquecidos. Senti necessidade de ser mais uma voz levantando o nome dos nossos compositores. Os álbuns cumprem o papel de registro histórico e preservação de memória com certeza, mas também não podemos esquecer que foi a oportunidade de eu cantar músicas que são belíssimas. Os compositores de Mato Grosso do Sul não perdem pra nenhum compositor nacional desse país.
Por que você escolheu enfocar, especificamente, o Geraldo Espíndola neste segundo álbum após homenagear Paulo Simões?
MARIA ALICE – Nesse momento em que eu pensei em começar a homenagear os artistas sul-mato-grossenses me veio uma tríade, começando pelo Paulo Simões, que é um dos melhores letristas desse país. Falo sem medo. Tem toda uma lógica na composição dele e um respeito com a língua portuguesa que a gente vê pouco hoje em dia. Acho que o Paulo, que é um grande parceiro do Almir Sater e eles têm músicas conhecidas, também enfrenta uma pouca visibilidade, mesmo sendo alguém que tem muita. E eu achei importante levantar o nome dele naquele momento. E não escolhi as músicas mais famosas do Paulo, indo em um caminho diferente do que optamos neste disco com as canções do Geraldo.
Como a experiência do primeiro álbum de homenagem contribuiu para fazer o segundo?
MARIA ALICE – Os processos foram diferentes porque também são dois compositores bem diferentes um do outro. Começando por este recorte do repertório, porque agora optei por músicas mais conhecidas do Geraldo, embora tenha algumas que não são. No caso do primeiro álbum eu sentia que o Paulo tinha músicas muito bonitas com pouca visibilidade perto de outras mais conhecidas e optei por elas. A questão é que, para a minha geração, tanto o Paulo Simões quanto o Geraldo Espíndola são as grandes referências. E o motivo é o talento absurdo que eles têm.
Você faz esta homenagem com os dois na faixa dos 70 anos e ainda na ativa. Esta foi uma questão que pesou para você escolher eles para homenagear?
MARIA ALICE – O bom é fazer homenagem que a pessoa possa ver. Todo tipo de homenagem é válida, mas se você puder fazer esta alegria para a pessoa é bacana. Para que ela possa ver que tem gente que se importa com o que ela está fazendo.

E como foi o contato com o Geraldo neste processo todo de feitura do disco?
MARIA ALICE – Foi tranquilo porque o Geraldo é uma figura super acessível. E o Jerry, que é irmão do Geraldo, está no projeto com a gente e ele facilitou muito também este caminho. Tanto que inicialmente, no primeiro momento, a ideia era fazer uma homenagem aos Espíndola porque todos eles têm uma obra muito relevante. Mas criou-se um caminho natural, após o álbum para o Paulo, de fazer novamente uma homenagem a um compositor porque a gente foi afunilando, montando repertório e aparecendo mais o Geraldo Espíndola. Eu já havia gravado a música dele, “Arte Aqui é Mato”, no meu primeiro disco “No Mundo a Passeio”. Então eu decidi que este novo disco seria mesmo unicamente em homenagem ao Geraldo.
Por que você optou por ter o Jerry Espíndola do seu lado no projeto?
MARIA ALICE – Quando eu pensei em homenagear os Espíndola, o Jerry já estava no pacote como compositor. Mas eu tinha pensado nele para ajudar na direção e na formatação deste novo trabalho. Quando foi afunilando o repertório o próprio Jerry sugeriu que o Geraldo deveria ser o homenageado. Então o Jerry foi importante desde a concepção do novo disco e também depois porque ele conhece todo o repertório do Geraldo. Foi uma dureza chegar no repertório porque é muita música boa. O Jerry também me ajudou na gravação da voz, amenizou um pouco meu sotaque nordestino em algumas músicas e ele me conduziu dentro desta lógica musical que todos os Espíndola possuem, me ajudando a entender melhor e respeitar a obra do seu irmão Geraldo.
O Pedro Ortale já tinha assinado a direção musical dos seus dois primeiros discos – “No Mundo a Passeio” e “Sertões” – e volta agora, desta vez juntamente com Jerry, no quarto álbum. O fato dele ter tido uma relação musical desde os anos 1980 com o Geraldo contribuiu para que você e ele retornasse essa parceria?
MARIA ALICE – O Pedro foi fundamental porque ele conhece muito bem a obra toda do Geraldo.
Neste sentido o novo álbum é bem diferente do anterior porque no disco para o Paulo o diretor musical foi o Gabriel de Andrade, de uma geração mais nova e que criou arranjos novos sem tanta referência da obra original, enquanto o Pedro desenvolveu arranjos muito colado a maneira de pensar musicalmente do próprio Geraldo, por ter já tocado com ele e conhecer os arranjos originais.
MARIA ALICE – Esta diferença dos trabalhos desde a concepção é muito legal. O disco em homenagem ao Paulo, com os arranjos do Gabriel, tem uma outra pegada em relação a este novo para o Geraldo. No entanto, em todos os shows que fizemos deste trabalho com as canções do Paulo eu vi gente se emocionando na plateia. É muito interessante o efeito que tem. E é por isso que eu tenho muito cuidado quando eu canto as músicas para respeitar as letras porque eu acho que não pode mexer no trabalho do compositor.
Você está falando em ser fiel a melodia e a letra das canções quando você vai interpretá-las?
MARIA ALICE – Exatamente. Já é bonito do jeito que é. Pode-se fazer um arranjo, mas sem alterar a música. As pessoas que conhecerem a música irão ouvir e vão cantar a música junto, mesmo que esteja em um arranjo diferente. Por isso, mudar a melodia da música fica bem estranho. Não tenho nada contra também, mas neste caso, como são discos em homenagem a compositores, para mim o respeito a obra é importantíssimo e fundamental.
Qual é a diferença para você entre a poética do Paulo Simões e a do Geraldo Espíndola?
MARIA ALICE – A similaridade eu acho que vem do ritmo porque não tem como negar a influência do ritmo ternário, o três por quatro, nas nossas músicas e o quanto ele está presente em tudo. Identifico essa presença do ternário nos trabalhos de Geraldo e Paulo. Mas são diferentes melodicamente e a forma de escrever. O Paulo é bem influenciado pela fronteira, influenciado pelo folk e o Geraldo tem uma pegada urbana.
Talvez o Paulo seja mais um cronista urbano e o Geraldo fabrique o seu próprio universo.
MARIA ALICE – Exatamente. Inclusive tem letras do Geraldo que muita gente não vai entender que o que ele está querendo dizer. Mas aí quando o Geraldo vai explicar tudo tem lógica. E o Paulo é um cronista do seu tempo. Músicas como “Sonhos Guaranis”, “Serra de Maracaju”, mesmo “Trem do Pantanal”, “Paiaguás”... ele está falando o que é mesmo. Mas o Geraldo também fala do nosso lugar e tem um jeito de referir a natureza que é demais.
Por que você decidiu gravar “Vida Cigana” em bossa nova?
MARIA ALICE – Foi uma sugestão do Pedro Ortale. Na verdade, eu e o Pedro temos uma relação muito próxima porque somos pais do João Pedro, somos vizinhos e parceiros na música. Provavelmente ele seria o diretor do disco do Paulo, mas ele estava morando no Ceará na época. O Pedro conhece muito bem os recursos e os limites da minha voz e fica mais fácil de trabalhar assim também porque você já tem esta afinidade muito grande com a pessoa.
Você é formada em Educação Artística, pela UFMS. Como começou a cantar profissionalmente?
MARIA ALICE – Quem me inseriu na música profissionalmente foi o saudoso Orlando Brito, que era meu professor de violão. Quando eu comecei a estudar violão eu tinha muita vergonha e eu cantava dentro do meu quarto. O Orlando tocava com a Sandra Menezes e ela foi para o Rio de Janeiro. Ele ficou sem parceira, na época o Orlando não cantava, e aí ele me chamou. Foi me puxando e me botou na música. Em 1988, eu já estava tocando com o Orlando. Não sei se eu não tivesse ido embora do Ceará se estaria na música. Poderia ter me jogado para outro caminho. Porque a música não era uma meta para mim quando eu estudava. Não sabia exatamente. Pensava que tinha ser na área da arte, mas sempre pensei em artes plásticas, desenho ou educação. E acabei por fazer o curso de Educação Artística e me formei em 1989.
Ouça o álbum "Maria Alice Canta Geraldo Espíndola" no Youtube: https://youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_lX0JFC3J0huU1ox-cYEUZIjxBQ4HSa_vU&si=O3AxUHUNOAIoGJyi
Leia a resenha sobre o álbum: https://manage.wix.com/dashboard/80946ea7-6f7a-4d19-8815-3c42fa701391/blog/7978191b-4106-4791-a33f-e2843ecf3a56/edit



