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“O Brasil tende a ignorar experiências que vêm de áreas periféricas ou de fronteira”

  • 10 de set. de 2025
  • 8 min de leitura

Rodrigo Teixeira conversa com John Caetano sobre o álbum Na Linha


Capa do álbum "Na Linha", primeiro disco solo de John Caetano
Capa do álbum "Na Linha", primeiro disco solo de John Caetano

John Caetano é um da artista sensível aos sinais da fronteira. E não é para menos. Ele vive em Ponta Porã, cidade de Mato Grosso do Sul, em que basta atravessar a rua para estar em Pedro Juan Caballero, no Paraguai. Esta exposição constante a uma identidade que tem no seu âmago a cultura paraguaia, a tradição aventureira dos pioneiros de todos os cantos que chegaram por ali e a herança dos indígenas que eram donos destas bandas muito antes dos invasores europeus resultou no recém-lançado primeiro disco solo de John Caetano, fundador da banda Surfistas de Trem. O blog Matula Cultural conversou com John Caetano para falar sobre o álbum “Na Linha” e a realidade de um artista que vive na fronteiriça Ponta Porã, bem longe do eixo Rio-São Paulo.


Confira a entrevista:

 

MATULA CULTURAL - Como foi a experiência de gravar o primeiro disco solo? Quais as diferenças de assumir um trabalho solo para um coletivo, como era com Surfistas de Trem?

JOHN CAETANO - Foi uma experiência nova e desafiadora. Eu sempre toquei em bandas, já são quase 25 anos de trajetória musical. Embora tenha feito alguns trabalhos de voz e violão, sempre foi em formato de cover, em bares, sem caráter autoral. Havia muito tempo eu desejava fazer algo diferente, mais artístico e pessoal. O trabalho solo não foi uma ruptura — a banda Surfistas de Trem continua — mas um desejo que amadureceu com os anos. Escrevi canções que não se encaixavam na identidade da banda e elas ficavam engavetadas. O álbum Na Linha nasceu justamente da vontade de dar vida a essas músicas, de conduzir um trabalho meu do início ao fim. O mais curioso é que, paradoxalmente, esse disco solo acabou sendo mais coletivo do que o último álbum da banda. Com Surfistas de Trem trabalhamos basicamente entre os quatro integrantes e alguns músicos de estúdio. Já em Na Linha participei da produção executiva, da escolha de repertório, da direção, e ainda pude chamar músicos de diferentes formações para cada faixa. Isso deu liberdade criativa e um sentido de coletividade maior: mais de dez músicos participaram, cada um trazendo seu talento específico.

 

MATULA CULTURAL - Por que você chamou Antônio Porto para produzir e como foi o processo com ele na condução da feitura do disco?

JOHN CAETANO - A participação do Antônio Porto foi um presente. Eu já era admirador do trabalho dele, sabia da sua importância musical para o Mato Grosso do Sul, para o Brasil e até fora do país. Nossa aproximação aconteceu quase por acaso: convidei-o para um workshop em Ponta Porã, ele também participou de um show no aniversário da cidade e desde então mantivemos contato. Quando surgiu a oportunidade de gravar com recursos da Lei Paulo Gustavo, pensei em um produtor que tivesse a versatilidade necessária para lidar com um repertório diverso: samba rock, rock mais pesado, MPB, reggae. Antônio era o nome perfeito, mas confesso que fiquei receoso de convidá-lo, por ser meu primeiro trabalho solo e ele já ter uma carreira tão consolidada. Para minha surpresa, ele aceitou de imediato, com muita generosidade e sinceridade. Outro parceiro fundamental no projeto foi o DERZI, que é cantor, compositor e produtor musical, da nova geração da fronteira. Ele dirigiu todas as gravações que fizemos aqui, além de ser parceiro em duas composições inéditas. Foi algo muito interessante trabalhar com o Porto, um cara mais clássico, e o DERZI que é da nova geração. Inicialmente a ideia era gravar cinco faixas para um EP, mas o processo foi tão orgânico que evoluiu para um álbum completo, com nove músicas. Antônio produziu praticamente todas, arranjou, tocou baixo em quase todas as faixas e deu uma contribuição decisiva na sonoridade final. Trabalhamos parte em Ponta Porã, parte no estúdio dele em São Roque, além de trocas à distância. Foi uma parceria extremamente rica, tanto pelo artista virtuoso que ele é, quanto pelo ser humano generoso e parceiro que se revelou.


John Caetano (Foto: Divulgação)
John Caetano (Foto: Divulgação)

 

MATULA CULTURAL - No repertório tem letras como Na Linha e Fronteira Cerrada que apontam para o dia a dia na fronteira. Como é ter um trabalho que descreve este cotidiano fronteiriço em um país que culturalmente está voltado para o litoral?

JOHN CAETANO - Eu costumo dizer que me sinto mais fronteiriço do que propriamente brasileiro. A frase “nasci num país chamado fronteira” resume bem essa identidade. Para nós aqui, a linha divisória entre Brasil e Paraguai é quase uma entidade viva, presente desde a infância. Minha música nasce desse lugar e dessa vivência. Não escrevo para me enquadrar em tendências ou atingir determinado público, mas para falar da fronteira como fonte de inspiração. Não me preocupo em buscar sucesso nacional — se acontecer, ótimo — mas meu compromisso é com a verdade local. Cantar sobre a fronteira é cantar sobre minhas verdades, sobre a geografia e a cultura que me cercam. Assim como no Surfistas de Trem, a fronteira é tema recorrente, e também nas minhas pesquisas acadêmicas. Isso me permite falar de um lugar que conheço profundamente, sem apropriação cultural. É uma música que reflete uma identidade própria, com raízes Guarani e latino-americanas, mas também dialoga com o mundo.

 

MATULA CULTURAL - Como é ser um artista da fronteira do Brasil, especificamente com o Paraguai, dentro da dinâmica cultural de Mato Grosso do Sul e do Brasil?

JOHN CAETANO - Infelizmente, poderia ser melhor. Em nível estadual, sentimos falta de maior escuta e de políticas públicas que contemplem com mais efetividade os artistas do interior, sobretudo os que estão tão distantes da capital. Iniciativas como o Circuito Cultural Guarani ajudam, mas ainda há um longo caminho para integrar a diversidade cultural do Estado. Em nível nacional, há a dificuldade de compreender a estética musical da fronteira: um som regional, mas com elementos globais. O Brasil, culturalmente voltado para o litoral, tende a ignorar experiências que vêm de áreas periféricas ou de fronteira. Ainda assim, acredito que Na Linha consegue romper um pouco essa barreira, porque, ao lado das músicas de identidade regional, traz canções universais, que poderiam ser cantadas em São Paulo ou em Amsterdã.

 

MATULA CULTURAL - Como você analisa, dentro da perspectiva de um artista de Ponta Porã, as possibilidades de atuação nas ações governamentais voltadas para os músicos do Estado de MS?

JOHN CAETANO - Já tivemos um cenário mais favorável. Hoje as dificuldades são grandes, especialmente pela distância geográfica em relação à capital. Falta descentralização dos editais e circuitos culturais, algo que já aconteceu em outros momentos, quando Surfistas de Trem conseguiu circular mais pelo estado. As políticas públicas precisam valorizar não apenas a produção da capital, mas também os artistas que constroem a cena no interior. Temos talentos, temos produção autoral, mas muitas vezes nos sentimos invisíveis. O ideal seria fortalecer editais, circuitos e iniciativas que aproximem o estado inteiro, dando oportunidade de circulação para a música que é feita aqui.

 

MATULA CULTURAL - Você tem a participação da Marina Peralta no disco. Como foi esta experiência?

JOHN CAETANO - Foi uma honra enorme contar com a Marina. A canção A Volta Grande da Vida já tinha uma trajetória longa: foi gravada como polca rock pelo Surfistas de Trem em 2013, depois em versão reggae num projeto com Toco Madeira. Para o álbum solo, optamos por essa versão reggae. O convite surgiu por meio do Jerry Espíndola, que é coautor da música comigo. Quando ouviu a versão, ele disse que lembrava muito o som da Marina e fez a ponte. Ela gravou em São Paulo, nós gravamos aqui, e a junção foi incrível. O resultado foi tão bom que a faixa se tornou a mais executada do álbum nos streamings. Mais do que isso, foi uma demonstração de generosidade dela em participar de um trabalho solo estreante, vindo de um artista do interior de MS.


John Caetano no lançamento do álbum em Ponta Porã (Foto: Divulgação)
John Caetano no lançamento do álbum em Ponta Porã (Foto: Divulgação)

 

MATULA CULTURAL - Você acompanha a cena da produção cultural da fronteira há anos. Qual a sua análise sobre os desafios que os músicos de Ponta Porã passam na atualidade para fomentar maior público na própria cidade, região e Estado de MS?

JOHN CAETANO - Completo este ano 23 anos de carreira, desde o primeiro cachê que recebi tocando. Nesse período, percebo que os desafios da fronteira são semelhantes aos de outros interiores: falta de espaços para se apresentar, dificuldade de divulgação ao vivo, e pouca renovação de público e artistas. A cena ainda é muito marcada pelos mesmos nomes de quando comecei. Poucos músicos novos conseguiram se estabelecer, e isso preocupa, porque a renovação é fundamental. Hoje temos uma iniciativa importante, a Fronteira Criativa, que abre espaço mensal para artistas locais. Mas ainda precisamos de mais: levar música autoral para praças, bairros, descentralizar. O público precisa ouvir e os artistas precisam tocar, receber cachê e viver de sua arte. Esse é o desafio central: criar um ciclo sustentável entre público e artista.

 

MATULA CULTURAL - Como você escolheu as músicas do disco? Eram antigas já, tem novas composições?

JOHN CAETANO - A proposta inicial, até pelo recurso disponível, era gravar um EP com cinco músicas inéditas, compostas principalmente no período da pandemia. No processo, outras ideias foram surgindo e foi difícil deixá-las de fora. Decidimos incluir três músicas já gravadas com Surfistas de Trem, em novas versões, além de uma homenagem especial: a canção Jukebox, do meu irmão Celso Arias, que foi um dos pioneiros do rock autoral na fronteira, nos anos 1990. Assim, o álbum reúne composições novas, releituras e um tributo às origens do rock fronteiriço. É um trabalho que olha para frente, mas também valoriza a memória.

 

MATULA CULTURAL - Qual o período de produção do disco? Onde gravaram? Ele é patrocinado pela PNAB? Quais são as ações que você vai fazer para divulgar o disco fora de Ponta Porã?

JOHN CAETANO - O álbum foi financiado pela Lei Paulo Gustavo em Ponta Porã. O projeto foi inscrito em setembro de 2023, aprovado ainda naquele ano, com recursos liberados em 2024. A produção se estendeu ao longo de 2024 e o lançamento oficial aconteceu em abril de 2025, após mais de um ano e meio de trabalho. As gravações foram descentralizadas: parte no Estúdio 418 em Ponta Porã (vocais e bateria), parte no estúdio do Antônio Porto em São Roque, além de registros em Campo Grande e Dourados. Foi um processo muito apoiado na tecnologia, com trocas de arquivos e gravações em diferentes lugares. Para divulgação, já lançamos no Festival Étnico Cultural dos Ervais, temos convite para o Festop em Dourados, possíveis parcerias com o Sesc MS e universidades. A ideia é ampliar a circulação, buscar editais e projetos que nos levem a outras cidades e estados. Na imprensa tivemos apoio de rádios, jornais e sites, principalmente na fronteira e em Campo Grande. Agora a meta é expandir.

 

MATULA CULTURAL - Quem fez o projeto gráfico? E qual foi a ideia?

JOHN CAETANO - O projeto gráfico foi desenvolvido pelo meu irmão, Jean Caetano, designer, utilizando inteligência artificial como ferramenta criativa. Participei com ideias e direcionamentos e, no final, produzimos algumas versões da capa que foram submetidas a uma votação popular no Instagram.

A escolhida — coincidentemente também a minha preferida — simboliza o conceito da linha, que é tão presente na vida fronteiriça. Para nós não há diferença entre estar no Brasil ou no Paraguai: vivemos sobre a linha. A capa traduz esse simbolismo, reforçando a identidade do disco como expressão de um lugar singular e pacífico no mundo.

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